Drogas Psicoativas — 06 outubro 2009

Nos capítulos anteriores foi possível caracterizar o sistema canabinóide como um importante modulador da atividade motora e psíquica do organismo humano. O THC, devido a sua semelhança molecular com a anandamida, também é capaz de atuar nesse sistema.

 

Os efeitos que provoca, no entanto, são bastante diferentes. Há alguns motivos para isso: [1] os canabinóides endógenos são secretados localmente, enquanto o THC atinge de uma vez só todos os receptores CB1 do cérebro; [2] enquanto a ação dos canabinóides dura alguns segundos, o THC permanece horas no sistema nervoso central; [3] por fim, a anandamida é cerca de 4 a 20 vezes menos potente que o THC.

 

Efeitos agudos do consumo de maconha

 

A experiência com a maconha, além de seu substrato neurobiológico, é altamente influenciada pela dose utilizada, pelo ambiente do consumo e pelas experiências anteriores ou expectativas dos usuários. Geralmente, há um estágio intermediário, com sensação de formigamento pelo corpo e pela cabeça, acompanhada por tonturas. A viagem produzida é uma experiência complexa, caracterizada por aceleração na associação de idéias e senso de humor apurado. Há sensação de calma e relaxamento, dentro de um estado onírico, desconectado da realidade. Com freqüência, há dificuldade em manter a interlocução dentro de uma tendência lógica, escapando com freqüência para construções marcadas pela fantasia. Sonolência e sono podem aparecer. Percepções audiovisuais exacerbadas, aumento do apetite e distorção da orientação temporal já foram descritas anteriormente. Efeitos adversos, tais como piora da concentração e da memória, sintomas paranóides e inatividade também podem acontecer.

 

O córtex pré-frontal e o sistema límbico parecem ser os responsáveis por esses efeitos. No sistema límbico, há duas regiões especialmente envolvidas: o hipotálamo e a área tegmental ventral ou sistema de recompensa.

 

Tolerância e dependência

 

Estudos com animais e seres humanos demonstram a presença de tolerância após o consumo repetido de maconha. Sintomas de abstinência da substância também já foram descritos. O quadro é marcadamente psíquico e inclui fissura pela maconha, diminuição do apetite, insônia e perda de peso. Alguns indivíduos também apresentam pesadelos, inquietação, ansiedade, irritabilidade e agressividade. Neurobilogicamente, a síndrome de abstinência pode estar relacionada à redução de dopamina no sistema de recompensa (como ocorre com outras drogas) e ao aumento da liberação de corticóides pela ação da amigdala (sistema límbico).

 

Algumas evidências sugerem pontos em comum entre o desenvolvimento de dependência dos canabinóides e opiáceos. Desse modo, a administração de bloqueadores opióides (naloxone ou naltrexone) desencadeiam sintomas de abstinência em usuários de maconha. Por outro lado, a administração de THC alivia os sintomas psíquicos de abstinência em usuários de opiáceos.

 

Efeitos adversos da maconha no sistema nervoso central

 

Apesar de alertas acerca da possibilidade de danos permanentes no sistema nervoso em decorrência do uso crônico de maconha, há pouca evidência científica nesse sentido. Os estudos de melhor qualidade relevam piora discreta na habilidade para manter o foco de atenção, bem como para filtrar informações irrelevantes. Há pouca evidência de que o consumo de maconha prejudique o desempenho no trabalho, evolua para uma síndrome amotivacional ou mesmo produza alterações neuropatológicas. Estudos em animais são altamente conflitantes: alguns apontam para danos permanentes, enquanto outros, pelo contrário, detectaram efeitos benéficos (neuroprotetores) para o sistema nervoso. Isso demonstra, ao menos momentaneamente, que a ação da maconha sobre o sistema nervoso não produz danos neurológicos permanentes no cérebro.

 

Maconha e doença mental

 

Há uma associação entre o consumo de maconha e o surgimento de doenças mentais, principalmente as psicoses. Sintomas psicóticos agudos, como delírios de perseguição ou grandiosidade, alucinações auditivas ou transmissão do pensamento muitas vezes levam o usuário à atenção médica de urgência. O quadro usualmente permanece apenas durante a intoxicação. Isso levou alguns cientistas a considerarem uma hipótese canabinóide para a esquizofrenia, sugerindo que os sintomas esquizofrênicos são mediados pelo sistema canabinóide.

 

Estudos que acompanharam usuários por muitos anos e os compararam a não-usuários no mesmo período encontraram resultados contraditórios. Evidências mais consistentes entre maconha e psicose aparecem em indivíduos com predisposição para a esquizofrenia (antecedentes familiares, personalidade esquizotípica). Por outro lado, o consumo de maconha é capaz de exacerbar sintomas psicóticos em indivíduos previamente doentes, sendo prudente, desse modo, desencorajar o consumo da planta entre os indivíduos portadores desse tipo de patologia.

 

O artigo de Leslie Iversen apresenta um panorama da evolução do conhecimento sobre a neurobiologia da maconha, bem como do funcionamento do sistema canabinóide. Novas possibilidades terapêuticas à base derivados do THC, isentas dos seus efeitos adversos, poderão ser desenvolvidas futuramente. Além disso, os estudos sobre a ação do THC no sistema nervoso nos últimos dez anos e a descoberta do sistema canabinóide tornaram a maconha uma das substâncias psicoativas mais conhecidas pela ciência, derrubando mitos e tabus, tanto favoráveis, quanto contrários ao consumo da substância, em favor de uma visão mais isenta e equilibrada. Um processo que apesar dos avanços, ainda se encontra em pleno andamento.

 

Fonte: Site Álcool e Drogas sem Distorção

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