Diálogo e orientação na luta contra o álcool

Os riscos do consumo de bebidas alcoólicas devem ser abordados dentro de casa e em ambiente escolar

 

Para um número substancial de brasileiros, o contato inicial com a bebida alcoólica ocorre em casa, aos 13 anos. Os dados são da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (Pense 2012).

O papo em família é vital para que o consumo de bebidas alcoólicas deixe de ser um tema tabu. A ilustração está na cartilha “Papo em família – Como falar sobre bebidas alcoólicas com menores de 18 anos” (Ambev e Maurício de Sousa Produções)
O estudo realizado pelo instituto americano Internacional Center for Alcohol Policies (ICAP) confirma que 46% dos jovens provaram álcool pela primeira vez no conforto familiar. No entanto, o consumo de álcool por adolescentes ainda é considerado um tabu para muitos pais. Apesar de 98% encararem o tema como relevante, um terço deles ainda não conversaram com os filhos por não saber como abordar o assunto.
Papo sério
Diante dessa realidade, a Ambev, em parceria com a Maurício de Sousa Produções, criou o projeto “Papo em família”. Por meio de cartilha, tirinhas, webséries e gibis com personagens da Turma da Mônica, o objetivo é fornecer uma ferramenta para que as famílias levem o tema para dentro de casa, assim como os professores para as salas de aula.
Com base em estudos de instituições internacionais e em pesquisas do Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (Cisa), o projeto teve conteúdo desenvolvido e adaptado à realidade brasileira, com o auxílio de especialistas. São eles a psicóloga e educadora Rosely Sayão; o psiquiatra e coordenador do Grupo Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas da USP, Arthur Guerra de Andrade; o professor da Unifesp e fundador da Associação Brasileira de Estudos sobre Álcool e Outras Drogas, Dartiu Xavier da Silveira; o cientista social e professor da Faculdade de Saúde Pública da USP, Edemilson Antunes de Campos; e a médica especialista em prevenção e saúde coletiva, Bettina Grajcer.
A cartilha “Papo em família – Como falar sobre bebidas alcoólicas com menores de 18 anos” oferece dicas, ilustrações e exemplos que facilitam a abordagem do tema. De acordo com a faixa etária a qual se destina, as histórias são estreladas por personagens de Maurício de Sousa: Turma da Mônica, Turma da Mônica Jovem e Turma da Tina.
Até o fim de 2014, a iniciativa pretende chegar a 21 ONGs e alcançar cerca de cinco milhões de pessoas. O material está à disposição das secretarias de educação, órgãos e instituições interessados.
No entanto, os pais costumam se preocupar mais com as drogas ilícitas, diz a médica Bettina Grajcer. “As pessoas não veem que a bebida está mais próxima do cotidiano dos jovens. Existe uma cultura do ´tudo bem consumir´. A dificuldade é perceber que a bebida faz parte da nossa cultura, mas que há o momento certo para ela”, defende.
Segundo a médica, os pais esquecem de dar o exemplo. “Eles não sabem como abordar, confiam nos filhos achando que eles saberão tomar as decisões corretas, no entanto não reconhecem a hora certa de falar sobre o tema. A dica é começar o quanto antes, usando qualquer oportunidade. Não dá pra perder o vínculo com o filho durante um tempo e querer retomar depois. Os pais têm que estar próximos, estabelecendo limites”, diz.
Limite responsável
O consumo consciente também começa pelas ações praticadas pelos pais, ressalta o psiquiatra Arthur Guerra de Andrade. “O exemplo não é a melhor forma de ensinar para alguém, é a única. Se nós não conseguirmos dar um exemplo, dificilmente as outras ações vão ter algum sucesso”.
A opinião é defendida pela jornalista Bárbara Gancia, que também colaborou no desenvolvimento da cartilha e luta contra o alcoolismo desde a infância. “Muitos pais não querem ter o trabalho de ensinar, de apontar limites. Querem apenas ser amigos dos filhos”.
Bárbara tem 56 anos e comemora seis longe do álcool. Lembra que teve seu primeiro porre aos três, justamente por conta de descuidos que os pais podem evitar. Curiosa em provar restos de bebida em copinhos, durante uma festa em família, acabou ficando embriagada. Gancia diz que o segundo e terceiro porre vieram aos seis e nove anos e que seus pais não perceberam. “Achavam que eu era louca, problemática. Não olhavam para mim como uma pessoa que tinha uma doença definida pela OMS como incurável, progressiva e mortal. Naquela época o perfil do alcoólatra era de quem passava o dia na rua bebendo e não de alguém que bebia em casa”.
Por conta de sua história de vida, Gancia é a favor de uma conscientização, desde a infância, contra o consumo de bebidas alcoólicas por menores de 18 anos. “A questão reside na tolerância da combinação criança/adolescente com poder bebericar uma caipirinha, achando que ´um gole de bebida não faz mal´. Faz sim. O corpo da criança e do jovem está em desenvolvimento e não combina com ingestão de álcool. Criança e menores de 18 anos não podem beber álcool e não se discute mais”.
Lançamento
Cartilha “Papo em Família “. Disponível para download pelo site: www.ambev.com.br/papoemfamilia
Histórias de vida e superação passam pelo AA
São 39 anos e três meses sem beber. Uma vitória e tanto para José C, 69 anos. “Meu primeiro contato com a bebida foi com 14, 15 anos. Tomei Martini com refrigerante, por influência da turma. Achei muito doce e preferi partir para o álcool puro. Saí da festa carregado pelos amigos. No outro dia amanheci com o vômito sobre o meu corpo e, a partir daí, começou a minha decadência”, relembra.
Na época, José morava com um tio, em Teresina (PI). A bebida, que no início era companheira dos fins de semana, passou a fazer parte do seu dia a dia. Preocupado, o tio conseguiu que um amigo arranjasse um emprego para o sobrinho em Fortaleza. José se mudou para a capital com a promessa pessoal de fazer dar certo a chance numa empresa de transportes. O novo chefe pagou hospedagem e alimentação e o rapaz se viu crescer rápido para o cargo de gerente.
Só que o bom dinheiro, as roupas novas, as boates e as más amizades o levaram para a bebida. “Comecei a faltar ao trabalho e a gastar tudo na noite. Perdi tudo e fiquei três anos morando na rua. Pedia esmola para beber. Catava comida no camburão do lixo. Eu vegetava no mundo”.
José se envolveu com muitas mulheres no baixo meretrício no Arraial Moura Brasil. “Ali, peguei doenças venéreas, tive contato com drogas e roubei para sobreviver”. Foi quando uma mulher, “um anjo”, apareceu na sua vida e ficou grávida dele. “Passei quase um mês sem beber porque ia ser pai, mas o vício voltou muito pior”.
AA: quando tudo mudou
Em 1974, José foi levado por um amigo para uma reunião dos Alcoólicos Anônimos (AA). “Fui uma vez, mas achava que aquilo não era para mim. Porém, quando cheguei em casa e vi meu filho e minha mulher sem ter o que comer e eu liso, resolvi entrar de vez nas reuniões”.
“Quando aceitei que era doente, a vida ganhou outra perspectiva. Consegui terminar o Ensino Médio, trabalhei em vários lugares e hoje sou servidor público aposentado, vitorioso, com dois filhos, netos e bisnetos”.
Sobre a importância da família na formação do caráter e destino dos filhos, inclusive no tema alcoolismo, José é enfático: “os pais precisam acompanhar os filhos de perto. Se estiverem juntos, a história de dependência pode seguir um curso diferente”.
Diário do Nordeste

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